Chamada para o dossiê "Mulheres e música em 2021: A que ponto chegamos?"

2021-09-03

Mulheres e música em 2021: a que ponto chegamos?

Há 45 anos, em 1976, surgia o primeiro artigo da compositora e musicóloga Nilcéia Baroncelli alertando para a quase total invisibilidade das mulheres no campo da criação musical. Animada por uma publicação no jornal estadunidense The New York Times em que o crítico Donald Henahan mostrava uma nova mentalidade, um olhar sem preconceitos e o interesse genuíno pela produção de mulheres compositoras, Nilcéia compartilhou generosamente seu conhecimento sobre a temática no Jornal Brasil Mulher, com ótima acolhida por parte do público e da crítica. Seu livro Mulheres compositoras: elenco e repertório seria lançado em 1987 pela Editora Roswitha Kempf, permanecendo como referência para as muitas pessoas que hoje se dedicam a escrever – ou reescrever - a trajetória das mulheres no restrito círculo da composição musical, ocupado quase exclusivamente pelos chamados Mestres da Música Ocidental.

De lá para cá a pesquisa em gênero e música ganhou espaço e envergadura nacional e internacional, incentivada, além dos movimentos feministas da década de 1970, pelo surgimento da chamada Nova Musicologia – ou New Musicology – na década de 1980. Livros como Alice doesn’t: Feminism, Semiotics, Cinema, de Teresa de Lauretis (1984), Feminine Endings, Music, Gender and Sexuality, de Susan McClary (1991) e Gender and the Musical Canon, de Marcia J. Citron (1993), entre outros publicados no Hemisfério Norte, ecoaram nos países do Hemisfério Sul reverberando com muita potência a partir, principalmente, do século XXI. Não só as mulheres – que por si já configurariam metade ou mais da população mundial – tiveram sua atuação descortinada no que diz respeito à composição, performance, regência, arte sonora, produção acústica, eletrônica e midiática, entre outras áreas, como também outras minorias representativas, como integrantes das comunidades negras, LGBTQI+, indígenas, etc. Uma entre tantas provas deste enorme leque de possibilidades e interseccionalidades que se abriu para os/as/es amantes da música e das artes em geral, enriquecendo e revigorando esse ambiente tradicionalmente conservador e elitista, foi a publicação online de Lesbian and Gay Music como integrante da coleção The New Grove Dictionary of Music and Musicians em 2001, traduzido para o português por Carlos Palombini no ano seguinte e disponibilizado na Revista Eletrônica de Musicologia nº 7, 2002, também online.

Na América Latina, uma das pioneiras a catalogar compositoras e suas obras foi a argentina e uruguaia Graciela Paraskevaídis, em La mujer como creadora de bienes musicales en América Latina: una documentación (1989). Seguiram-se inúmeros livros e, principalmente, artigos, dissertações e teses acadêmicas, tais como La mujer compositora y su aporte al desarrollo musical chileno, de Raquel Bustos Valderrama (2012), Estudos de gênero, corpo e música: abordagens metodológicas, de Isabel Porto Nogueira e Susan Campos Fonseca (Org., 2013), Música y mujer em Iberoamérica: haciendo música desde la condición de género, organizado por Juan Pablo González a partir do III Colóquio Ibermúsicas sobre investigación musical (2017), Compositoras Latino-americanas: vida, obre, análise de peças para piano, de Eliana Monteiro da Silva (2019), entre outros. Encontros como Fazendo Gênero, no Brasil, Seminário de música, sonido y género, no México e Jornadas de Música y Género, na Argentina, reúnem milhares de pessoas que investigam a temática e atraem novos/as/es integrantes. Ainda que soprem ventos contrarrevolucionários...

Por sua vez, a representação das mulheres na música ontem e hoje pelos veículos de mídia têm seu papel na ocultação, bem como na valorização e divulgação de seus trabalhos. Fernanda Suppicich (2020), por exemplo, analisou de que maneira a indústria audiovisual argentina, condicionada a costumes e padrões conservadores, lidou com imagens de intérpretes e/ou compositoras como a cantautora de tangos Rosita Quiroga. A construção da figura de outra cantautora latino-americana pelos meios de comunicação – a chilena Violeta Parra – também foi objeto de análise da pesquisadora Lorena Valdebenito (2018) a partir de eixos como significação, representação, registro histórico e biográfico, entre outros.

Perguntas sobre como são, estão e tendem a ser representadas essas tendências ao que já chamamos pós-modernidade e carece de termos mais apropriados na segunda década do século XXI foram escolhidas como ponto de partida para as reflexões que propomos neste terceiro volume da Revista Musimid em 2021. Outras são “quais são as plataformas utilizadas por estas novas personagens e por quem as segue, produz e/ou consome seu fazer artístico e musical”, “que vertentes surgiram e se esboçam a partir de tal revolução sonora, teatral e/ou de concerto para a década que inauguramos”, “quais são as formas possíveis de análise das diversas produções musicais realizadas por mulheres”, e assim por diante.

Convidamos a todas/os/es para que enviem propostas de artigos, resenhas e/ou entrevistas, que se alinhem, de alguma maneira, às linhas temáticas sugeridas:

1) A produção das mulheres na composição musical / arte sonora / improvisação / outras formas de criação;

2) A programação de mulheres como autoras e/ou intérpretes em festivais, concertos, gravações e outros eventos;

3) Recepção e registro da atuação das mulheres nas diversas áreas da musica;

4) Mulheres musicistas no contexto racial e social;

5) Mulher, música e mídia: estudos sobre a representação das mulheres musicistas;

6) Tecnologias e plataformas de produção e divulgação do trabalho de mulheres na música;

7) Outros desdobramentos do tema principal.

 

Referências

BARONCELLI, Nilcéia Cleide da Silva. Mulheres compositoras: elenco e repertório. São Paulo: Roswitha Kempf, 1987.

BRETT, Philip & Elizabeth Wood. "Lesbian and Gay Music". The New Grove Dictionary of Music and Musicians. 2001. Disponível em: https://www.oxfordmusiconline.com/grovemusic/view/10.1093/gmo/9781561592630.001.0001/omo-9781561592630-e-0000042824. Acesso em 20/12/2020.

BRETT, Philip & Elizabeth Wood. "Música lésbica e guei". Trad. Carlos Palombini. Revista Eletrônica de Musicologia, n. 7, 2002. Disponível em: www.rem.ufpr.br/_REM/REMv7/Brett_Wood/Brett_e_Wood.html. Acesso em 20/12/2020.

BUSTOS VALDERRAMA, Raquel. La mujer compositora y su aporte al desarrollo musical chileno. Santiago: Ediciones Universidad Católica de Chile, 2012.

CAMPOS FONSECA, Susan; NOGUEIRA, Isabel Porto (Org.). Estudos de gênero, corpo e música: abordagens metodológicas. Goiânia/Porto Alegre: ANPPOM, 2013. 

CITRON, Marcia J. Gender and the Musical Canon. Cambridge: Press Sindicate of the University of Cambridge, 1993.

GONZÁLEZ, Juan Pablo (Org.). Música y mujer em Iberoamérica: haciendo música desde la condición de género. 2017. Disponível em: http://ibermusicas.org/index.php/se-publica-el-libro-que-compila-las-ponencias-del-3-coloquio-de-investigacion-musical-ibermusicas-2017-2/. Acesso em 20/12/2020.

LAURETIS, Teresa de. Alice doesn’t: Feminism, Semiotics, Cinema. Bloomington: Indiana University Press, 1984.

MCCLARY, Susan. Feminine Endings, Music, Gender and Sexuality. Minneapolis & London: University of Minnesota Press, 1991 (Reprinted in 2002).

MONTEIRO DA SILVA, Eliana. Compositoras Latino-americanas: vida, obre, análise de peças para piano. São Paulo: Ficções Editora, 2019. Disponível em: http://ficcoes.com.br/livros/compositoras_la.html. Acesso em: 20/12/2020.

______. Nilcéia Cleide da Silva Baroncelli: compositora e pesquisadora sobre mulheres na música. In: Claves, vol. 2018 (2018). Disponível em: file:///Users/administrador/Downloads/43812-Texto%20do%20artigo-106153-1-10-20181230%20(2).pdf. Acesso em 19/12/2020.

 PARASKEVAÍDIS, Graciela. La mujer como creadora de bienes musicales en América Latina: una documentación. Montevidéu: Escuela Universitária de Música, 1989.

SUPPICICH, Fernanda. La interpretación em Rosita Quiroga: canto, imagen y mestizaje. Palestra apresentada nas II Jornadas de Música y Género del Conservatório Superior de Música Astor Piazzolla, septiembre de 2020.

VALDEBENITO, Lorena. Vio-le-ta Pa-rra fragmentada: análisis de discursos articulados en su construcción como figura de la música en Chile a partir de su muerte. Universidad de Salamanca, 2018.